Reflexoes 2

(Portuguese and English) – O texto levanta questões a discutir sobre o whistleblowing no Brasil e torce para que o tema ganhe relevância nas discussões de governança corporativa.

Antes de continuar, aviso: não tenho respostas, só perguntas. Se por um lado o Brasil discute ativamente questões de governança corporativa e as “boas práticas” são conhecidas (não necessariamente praticadas), eu sempre me questionei por que o whistleblowing nunca entrou na lista de tópicos, ganhou profundidade ou destaque na mídia.

À medida que as investigações revelam a corrupção ampla, profunda e sistêmica na Petrobras, e deixa perplexos até os mais descrentes, me pergunto: os funcionários não sabiam, não têm provas? Por que ninguém veio a público para denunciar a administração? Por que os funcionários estão tão silenciosos? Em 12 de dezembro de 2014, a voz solitária de Venina Veloso da Fonseca[1] foi ouvida. Suspensa de suas funções e colocada no mesmo saco com outros investigados, a gerente decidiu vir a público e dizer o que sabia; testemunhar e dar provas que havia avisado seus superiores sobre as más práticas e que nada foi feito.

Talvez não tenha nada a perder, mas não quero adicionar aos esforços diligentes de funcionários do governo, políticos e da própria administração da companhia para desqualificá-la, para desacreditá-la. Ao contrário, o comportamento dela é novo nesse ambiente. Minha pergunta é por que é dela a única voz que ouvimos?

Empregados em nível gerencial não precisam ser gênios para saber que se existe corrupção, pelo menos, alguns sabem de tudo ou de parte e frequentemente mantêm provas para se protegerem caso sejam suspeitos, principalmente quando são obrigados por superiores a agir contra as regras de governança e do código de conduta. Funcionários da área financeira fazem pagamentos e conhecem números e geralmente desconfiam quando há algo de esquisito, mesmo com a conveniência de áreas funcionais separadas o que frequentemente dificulta àqueles que não estão no topo a juntar dois mais dois.

Suspeito, com frequência, que a relutância das empresas (até grandes e sofisticadas) em investirem em transparência interna, dar clareza e unificar fontes de informação resulta não apenas da assustadora dificuldade técnica de transformar uma enorme quantidade de dados em informação, mas também porque informação transparente e visível, e pensamento integrado, evidenciam a boa e a má gestão e ajudam a detectar a corrupção. A manutenção dos silos corporativos não é só produto do crescimento e do tamanho, é também um mecanismo conveniente de controle social e de manutenção de poder.

Mas a estória da Venina serve para mostrar alguns problemas a serem enfrentados por aqueles que soprarão o apito. O primeiro e mais fácil é a desqualificação pública e possível ridicularização. Abstendo de listar os itens pesados – ameaças de vida, intimidação, etc.; existem muitas perguntas relevantes a serem feitas. Se um funcionário quer soprar o apito, como faz? Os canais “normais” de denúncia estão preparados para lidar com estas questões e são confiáveis? Devem ser internos ou mantidos por partes externas isentas?

Como se dará a proteção aos funcionários? Não é só uma questão de assegurar o emprego, mas também de ter a sua empregabilidade e o escopo e relevância das suas funções garantidas. Se deixarem a companhia, serão contratados por outras? Como protegê-los do assédio moral de superiores, colegas politicamente motivados ou daqueles que têm tanto medo de perderem o emprego que não querem mexer em nada?

Temos no Brasil as leis necessárias para proteger e incentivar o whistleblowing? A sociedade brasileira quer tais leis? A cultura autoritária do Brasil contribui para a passividade e ausência de empodeiramento? As pessoas têm medo do empodeiramento porque este vem de mão dada, inevitavelmente, à necessária, mas tão temida prestação de contas e responsabilização (accountability)? Se prevalece a cultura que odeia a agência porque esta implica em assumir responsabilidade por seus atos, precisamos muda-la? Seremos competitivos no cenário global se não mudarmos? Vamos ficar para trás dos líders do mundo, ou queremos acelerar as mudanças? O fato dos brasileiros privilegiarem as relações e evitarem o confronto – mesmo quando este for sadio e levar ao progresso e à resolução de problemas – impede que indivíduos se sobressaiam no grupo? O que devemos fazer para assegurar que os whistleblowers sejam sérios a como tal, moralmente valorizados, ao invés de se tornarem ícones que as pessoas dizem admirar, mas que querem o mais longe possível? O que fazer para que não sejam eternamente estigmatizados como “dedo duros”?  Como ajudamos funcionários saber qual provas coletar e como fazê-lo? Como provemos incentivos para os que denunciam? Quais as estratégias e ações que devem ser adotadas para alterar o comportamento e os valores?

Isto é apenas uma pequena visão das questões que devem ser levantadas, mas espero que os eventos atuais sirvam para dar a partida em uma discussão séria sobre whistleblowing nas esferas empresariais e governamentais brasileiras.

[1] Diretoria da Petrobras foi alertada de desvios – Valor Econômico (12-12-14)

 

Texto também pode ser encontrado em http://www.quanticaconsultoria.com/quantica-consultoria/

 

 

 

 

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